O Canto da Cigarra: Sátiras às Mulheres

por Augusto Gil

Dedicatória
Prefácio
Intróito
A Virtude
O Amor
O Casamento E A Família
Trovas De Pero Botelho
Dísticos I A VIII
Dísticos IX A XVI
Dísticos XVII A XXIII
Graça Imortal
A Sabedoria Das Nações I A V
A Sabedoria Das Nações VI A XI
A Esmo

Junta-te!

IX - A sugestão dos nomes

A Francisco Carrelhas

«Torre de Dona Chama, 18 às 3 e 20 da t. Liberal, Lisboa. A povoação em peso insurgiu-se contra o procedimento do bispo de Bragança e resolveu efectuar civilmente os baptizados e enterros.» - Correspondente.
«Pampilhosa do Botão, 17. Século, Lisboa. Torna-se cada vez mais sensível a falta de pastos. Os lavradores estão preocupadíssimos e em vésperas duma crise de fome. C.»

«As coisas são o que são»
Clássica e pleonástica tolice!
Tola e sentenciosa opinião!

as coisas são o que o seu nome indica,
São o que a eufonia lhes predisse
E nelas sempre dominando fica...

Há nomes donde o encanto se derrama,
Outros, que só ridículo nos dão.
Queiram ouvir: Torre de Dona Chama!
Contraste: Pampilhosa do Botão...

Mal calculava talvez
Quem te serviu de madrinha
A boa escolha que fez!

(É Túlia, mas chamam-lhe Tolinha...)

X - Frase feita

Ao Poeta José Augusto de Castro

«É o meu coração um livro aberto»

Que pena! Um livro aberto! Mas assim
Sempre isso que diziam era certo,
- Leu-o alguém antes de mim...

XI - Águas passadas que movem moinhos

A José Queiroz

«Deitei um véu por sobre o meu passado«

Enterra-o antes, moreninha linda.
Um véu ( e não é véu se for fechado )
- Alguma coisa deixa ver ainda...

XII - Idílio cómico

A Guilherme Braga
(Sobrinho)

Aquilo que me lembra com mais gosto
Desse cómico amor intermitente
É ua noite cálida de Agosto
Em que ambos nos beijámos longamente,
Até luzir no céu a madrugada...

Eu de cá
E tu de lá
- Duma porta envidraçada

(Convém explicar talvez
Que sucedera um entrave:
A porta estava fechada
E não tinhamos a chave).

XIII - A contrario sensu

A Martins Figueira

Sempre que tu nervosamente estejas
Toda expansiva, toda tagarela,
Tens qualquer coisa, à certa, mas desejas
Que eu não a saiba, que não dê por ela...

Quando porém inculcas seriedades,
Quando a língua incansável te repoisa,
- Então estás com vontade
De contar-me alguma coisa...

XIV - A tout seigneur...

A Adelino Mendes

No teu pescoço esbelto de morena
Usas, às vezes um decote em .

Essa letra, porém, é tão pequena
Que mal se lê,
Que mostra apenas, dentre o que se escondeu,
Uma nesga inestética e minúscula.

Ora um colo como o teu...
- Merece letra maiúscula.

XV - Castelos no ar

A Simão José

Naquele Julho - abrasante
Como um inferno dantesco -
Íamos para o mirante
Às tardes, tomar o fresco.

Tu ficavas assentada...
Eu, ao pé, olhando o espaço,
Com a cabeça deitada
No teu divino regaço.

E conservava-me assim
Horas de horas, a sonhar
Altas torres de marfim,
Palácios, castelos no ar...

E a tais alturas me voava,
Meu amor, a fantasia,
Que lá das nuvens olhava...

Olhava, e já não te via!

XVI - O espelho que te ofereço

A Carlos de Lemos

Vou rogar esta praga a uma mulher
Que encheu a minha vida de amargura;

(Eu não a odeio sequer,
Tudo isto é literatura)

Tão corcunda, mulher, te veja eu,
Tão curva so peso das máguas,
Que só possas ver o céu...
- No espelho inquieto das águas!